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A Internet quântica está a começar a ser construída — e Portugal faz parte dela

Portugal já participa em redes, testes e ligações europeias de comunicação quântica. Mas aquilo que está a ser construído ainda está longe de ser uma Internet quântica completa.

NS
Redação
7 minAtualizado
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A Internet quântica está a começar a ser construída — e Portugal faz parte dela

Quando ouvimos “Internet quântica”, é fácil imaginar uma Internet muito mais rápida.

Não é isso que está a ser construída.

A ideia é criar redes capazes de usar propriedades da física quântica para ligar sistemas e oferecer formas de comunicação que uma rede convencional não consegue reproduzir da mesma maneira.

E Portugal já está envolvido nessa construção.

O país desenvolveu a PTQCI, a infraestrutura portuguesa de comunicações quânticas, apresentada como o primeiro segmento terrestre português da futura infraestrutura europeia EuroQCI.

Agora, novos projetos procuram ligar estas redes entre países e aproximar a investigação de uma infraestrutura europeia integrada.

Mas há uma diferença importante entre aquilo que já funciona hoje, aquilo que está a ser construído e aquilo a que poderemos um dia chamar uma verdadeira Internet quântica.

O que é afinal uma rede quântica?

A Internet que usamos hoje transporta informação através de bits.

De forma simplificada, um bit representa um 0 ou um 1.

Na computação e nas comunicações quânticas entram os qubits.

Um qubit é uma unidade de informação quântica e pode apresentar propriedades que não existem nos bits convencionais, incluindo superposição e entrelaçamento.

É precisamente essa diferença física que abre a possibilidade de construir novos tipos de redes.

Uma futura Internet quântica procuraria interligar dispositivos quânticos — computadores, sensores ou outros sistemas — permitindo distribuir estados e recursos quânticos através de uma rede.

Mas isso ainda não existe em grande escala.

O que existe hoje são componentes, experiências, redes-piloto e tecnologias específicas que começam a construir esse caminho.

Infográfico
Representação simplificada do percurso de integração portuguesa na infraestrutura europeia de comunicações quânticas. Não representa a topologia técnica completa das redes.
Representação simplificada do percurso de integração portuguesa na infraestrutura europeia de comunicações quânticas. Não representa a topologia técnica completa das redes.

QKD não é uma Internet quântica

Aqui aparece uma das confusões mais comuns.

Grande parte das infraestruturas de comunicação quântica que estão hoje a ser testadas e implementadas na Europa utiliza QKD — Quantum Key Distribution, ou distribuição quântica de chaves.

O objetivo da QKD é usar propriedades da física quântica para distribuir chaves criptográficas.

Essas chaves podem depois ser usadas para proteger comunicações convencionais.

Isto significa que uma videochamada protegida por QKD não se transforma, por isso, numa comunicação realizada através de uma “Internet quântica”.

Também não devemos confundir QKD com criptografia pós-quântica.

A criptografia pós-quântica utiliza algoritmos convencionais concebidos para resistir a ataques de futuros computadores quânticos suficientemente poderosos.

São tecnologias diferentes.

E nenhuma delas, isoladamente, equivale a uma Internet quântica completa.

Destaque
QKD Usa propriedades quânticas para distribuir chaves criptográficas. CRIPTOGRAFIA PÓS-QUÂNTICA Usa algoritmos clássicos concebidos para resistir a futuros computadores quânticos. INTERNET QUÂNTICA Procura interligar sistemas quânticos e permitir a distribuição de informação e recursos quânticos através de uma rede.

Como se constrói uma rede quântica?

Estas redes continuam a precisar de infraestrutura física.

Fontes de fotões.

Equipamento ótico.

Detetores.

Fibra.

Nós de rede.

E sistemas convencionais que coordenam parte da comunicação.

Em muitas implementações atuais, os sinais quânticos percorrem fibras semelhantes às que já são usadas pelas redes de telecomunicações.

Mas transportar informação quântica a grandes distâncias é muito mais difícil do que simplesmente amplificar um sinal clássico.

Por isso, a construção de redes de maior alcance continua a depender de investigação em áreas como nós e repetidores quânticos e de novas formas de combinar infraestrutura terrestre e espacial.

É também por isso que a EuroQCI foi concebida com duas componentes: uma terrestre, baseada sobretudo em fibra, e outra espacial, baseada em satélites.

Onde entra Portugal?

Portugal começou a construir esta capacidade através da PTQCI — Portuguese Quantum Communication Infrastructure.

O projeto foi apresentado como o primeiro segmento terrestre português da EuroQCI e reuniu entidades públicas, operadores, empresas e instituições científicas.

Um dos objetivos foi desenvolver uma infraestrutura de comunicações baseada em QKD entre entidades públicas e criar também uma rede de testes para academia e empresas.

Parte deste trabalho já chegou a demonstrações reais.

Em novembro de 2023, parceiros da PTQCI implementaram uma ligação segura baseada em tecnologias quânticas numa rota de aproximadamente 14 quilómetros em Lisboa.

O projeto formal da PTQCI terminou em 2025, mas funcionou como uma das bases para a participação portuguesa na infraestrutura europeia que continua agora a evoluir.

Portugal já levou QKD para uma rede de telecomunicações real

Em abril de 2026 houve outro passo importante.

A Vodafone Portugal realizou uma demonstração de uma videochamada protegida através de tecnologia QKD entre três localizações em Lisboa.

A demonstração ligou o Vodafone Innovation Hub, um data center da operadora e o laboratório de tecnologias quânticas do Instituto Superior Técnico e do Portuguese Quantum Institute.

A solução QKD utilizada foi fornecida pela ThinkQuantum e funcionou sobre a infraestrutura de fibra da Vodafone.

Isto não significa que Portugal já tenha uma Internet quântica.

Significa algo mais concreto: tecnologia de distribuição quântica de chaves foi integrada e testada numa rede de telecomunicações real.

É precisamente esta distinção entre demonstração, infraestrutura operacional e futura rede quântica que importa preservar.

A próxima etapa é ligar Portugal ao resto da Europa

Uma infraestrutura nacional, por si só, não cria uma rede europeia.

O passo seguinte é conseguir interligar redes e sistemas entre países.

É aqui que entram projetos ibéricos e a futura EuroQCI.

A lógica é construir progressivamente ligações nacionais e transfronteiriças capazes de funcionar dentro de uma arquitetura europeia comum.

Para Portugal, isso significa que a investigação e as redes desenvolvidas no país não estão a ser pensadas como uma infraestrutura isolada.

Fazem parte de uma tentativa europeia muito mais ampla de criar comunicações quânticas seguras e interoperáveis.

E é também por isso que Lisboa vai receber, a 28 e 29 de setembro, o encontro “A Global Quantum Internet Made in Europe”, organizado pela Quantum Internet Alliance.

O foco já não está apenas na investigação fundamental.

A discussão começa também a passar para sistemas integrados, pilotos e tecnologias mais próximas da implementação.

Infográfico
Representação simplificada do percurso de integração portuguesa na infraestrutura europeia de comunicações quânticas. Não representa a topologia técnica completa das redes.
Representação simplificada do percurso de integração portuguesa na infraestrutura europeia de comunicações quânticas. Não representa a topologia técnica completa das redes.

Porque é que o espaço também entra nesta rede?

As redes terrestres não resolvem todos os problemas de distância.

À medida que um sinal quântico percorre fibra, as perdas aumentam.

E informação quântica não pode ser simplesmente copiada e amplificada da mesma forma que fazemos com sinais convencionais.

É aqui que o espaço entra na arquitetura europeia.

A EuroQCI prevê complementar a infraestrutura terrestre com uma componente baseada em satélites.

A ideia é permitir ligações de maior alcance e integrar comunicações quânticas terrestres e espaciais.

Mas esta componente não deve ser apresentada como plenamente operacional.

Tal como outras partes da futura rede, continua a ser construída e desenvolvida.

Para que poderá servir?

No curto prazo, a prioridade europeia está sobretudo na segurança.

Instituições públicas, centros de dados, hospitais, redes de energia e outras infraestruturas críticas podem beneficiar de novas formas de proteção das comunicações.

Mas uma futura Internet quântica poderá ir mais longe.

A investigação explora a possibilidade de interligar computadores quânticos, sensores e outros dispositivos capazes de tirar partido de propriedades quânticas distribuídas através de uma rede.

Essa parte continua, porém, muito mais próxima da investigação do que de um serviço disponível ao público.

Não estamos perante uma substituição iminente da Internet.

Estamos perante a construção gradual de uma nova camada de infraestrutura tecnológica.

Quanto falta para uma verdadeira Internet quântica?

Não existe uma data simples.

Hoje já existem tecnologias QKD, ligações experimentais, redes-piloto e testbeds.

Na Europa estão a ser construídas infraestruturas nacionais e transfronteiriças.

Ao mesmo tempo, continuam em investigação tecnologias necessárias para redes quânticas muito mais completas e capazes de interligar sistemas a grande escala.

A própria Comissão Europeia reconhece que ainda existem obstáculos técnicos e de integração antes de ser possível atingir uma infraestrutura europeia certificada e segura de ponta a ponta.

Por isso, talvez a forma mais correta de olhar para este momento seja esta:

a Internet quântica ainda não chegou.

Mas algumas das peças necessárias para a construir já estão a sair dos laboratórios.

E Portugal está entre os países que tentam garantir um lugar nessa infraestrutura enquanto ela ainda está a ser definida.

Porque importa
A Europa está a construir uma infraestrutura própria para comunicações quânticas antes de estas tecnologias chegarem à escala comercial. Portugal participa nesse processo através de investigação, redes de teste e integração em iniciativas europeias. O interesse não está apenas em proteger comunicações. Está também em desenvolver conhecimento, equipamentos e competências numa área que poderá tornar-se parte importante da infraestrutura digital europeia.
O que acompanhar
  • A evolução das infraestruturas portuguesas de comunicação quântica.
  • As futuras ligações transfronteiriças entre Portugal e Espanha.
  • A integração progressiva das redes nacionais na EuroQCI.
  • O desenvolvimento da componente espacial europeia.
  • Novas demonstrações de QKD em redes comerciais.
  • Os resultados apresentados pela Quantum Internet Alliance em Lisboa, a 28 e 29 de setembro.
O sinal para o futuro
A Internet quântica não deverá aparecer de um dia para o outro. Está a ser construída por camadas: investigação, fibra, equipamentos, redes-piloto, ligações entre países e componentes espaciais. Para Portugal, o sinal importante é participar enquanto essa infraestrutura ainda está a ser desenhada — e não apenas quando estiver pronta para ser comprada.
Contexto

Portugal já participou na construção de redes e testes de comunicação quântica através da PTQCI e continua integrado no desenvolvimento europeu destas tecnologias. A EuroQCI pretende ligar infraestruturas nacionais e transfronteiriças numa rede segura que combine componentes terrestres e espaciais.

O padrão

A Internet quântica não está a surgir como um único produto ou lançamento. Está a ser construída por etapas: investigação, QKD, fibra, equipamentos, redes de teste, ligações entre países e futuros sistemas capazes de distribuir informação quântica em maior escala.

Fontes
PTQCI — Portuguese Quantum Communication InfrastructureComissão Europeia — European Quantum Communication Infrastructure / EuroQCIQuantum Internet Alliance — QIA Community Event 2026Vodafone Portugal — demonstração QKD de 17 de abril de 2026Portuguese Quantum Institute / Instituto Superior TécnicoInstituto de Telecomunicações