Do laboratório ao mercado: como Portugal quer criar mais empresas deep tech
Um novo programa quer ajudar equipas científicas a transformar tecnologias já validadas em produtos, empresas e projetos industriais. O desafio começa precisamente na fase em que a ciência tem de encontrar mercado, capital e clientes.

Uma tecnologia pode funcionar no laboratório e continuar muito longe de se transformar numa empresa.
Entre provar que uma ideia funciona e conseguir fabricá-la, encontrar clientes, proteger propriedade intelectual, levantar capital e construir um negócio existe uma fase particularmente difícil.
É precisamente aí que Portugal quer intervir.
O Tech Foundry Portugal — Deep Tech Edition está previsto decorrer entre setembro e dezembro de 2026 e foi criado para apoiar equipas científicas, spin-offs e startups de base tecnológica que já ultrapassaram a fase da ideia, mas ainda estão a tentar transformar investigação em soluções de mercado.
O programa pode receber até 40 equipas e concentra-se em tecnologias classificadas sobretudo nos níveis TRL 4 e TRL 5: projetos que já foram validados em laboratório ou começaram a ser testados em ambientes mais próximos das condições reais.
Mas o interesse desta iniciativa vai além de mais um programa de aceleração.
Ela aponta diretamente para uma pergunta maior: porque é tão difícil transformar boa investigação em empresas deep tech?
Primeiro: o que significa deep tech?
Deep tech não é simplesmente uma forma mais sofisticada de dizer startup tecnológica.
Em muitos destes projetos, o produto nasce de investigação científica ou de engenharia complexa e depende de avanços que não podem ser facilmente replicados apenas com software e uma pequena equipa.
Pode envolver novos materiais, biotecnologia, energia, computação avançada, eletrónica, robótica, espaço, sistemas autónomos ou tecnologias de dupla utilização.
Isso muda o caminho até ao mercado.
Uma aplicação digital pode ser construída, testada e distribuída relativamente depressa. Uma nova tecnologia de energia, um material avançado, um componente eletrónico ou uma solução para aplicações industriais pode precisar de protótipos físicos, certificação, propriedade intelectual, instalações de teste, parceiros industriais e vários ciclos de validação.
O risco não é apenas saber se existe procura.
É também provar que a tecnologia consegue funcionar fora do laboratório, de forma repetível, segura e economicamente viável.
TRL: a escala entre a ideia e o mundo real
É aqui que entra uma sigla muito comum na investigação europeia: TRL, ou Technology Readiness Level.
A escala vai de 1 a 9 e procura indicar o grau de maturidade de uma tecnologia.
No Tech Foundry, a preferência está nos níveis 4 e 5.
TRL 4 significa que a tecnologia já foi validada em ambiente laboratorial e existem resultados experimentais que mostram que o conceito funciona em condições controladas.
TRL 5 significa que essa validação já avançou para um ambiente relevante, mais próximo das condições reais de utilização.
Ainda não estamos perante um produto comercial.
Estamos precisamente na zona intermédia em que uma tecnologia deixa de ser apenas investigação, mas ainda precisa de provar que consegue sobreviver fora do laboratório.

O problema começa depois de a ciência funcionar
Ter resultados científicos promissores não resolve automaticamente as perguntas que aparecem a seguir.
Quem é o cliente?
Qual é a primeira aplicação comercial?
A tecnologia pode ser fabricada a um custo aceitável?
Quem financia os próximos dois ou três anos de desenvolvimento?
A propriedade intelectual está protegida?
É necessário um parceiro industrial?
Que certificações ou testes serão exigidos?
E a equipa científica tem competências comerciais, operacionais e financeiras suficientes para construir uma empresa?
É esta transição que programas portugueses e europeus estão agora a tentar atacar de forma mais explícita.
Portugal não parte do zero
O problema não parece estar simplesmente na ausência de investigação.
Portugal já conseguiu captar cerca de 1,3 mil milhões de euros através do Horizonte Europa e lidera entre os países abrangidos pelos instrumentos europeus de alargamento da participação, segundo a Comissão Europeia.
Também esteve entre os países com maior número de empresas selecionadas numa recente ronda do EIC Pre-Accelerator, programa europeu dirigido precisamente a empresas deep tech em fase inicial.
Um dos projetos portugueses selecionados trabalha, por exemplo, em tecnologia para comercialização de energia das ondas.
Isto não prova que Portugal tenha resolvido a passagem da ciência para o mercado.
Mostra antes que existe matéria-prima tecnológica e capacidade para competir por financiamento europeu.
A dificuldade seguinte chama-se escala
Mesmo conseguir criar a empresa não resolve necessariamente o problema.
Uma deep tech que já tem protótipo e primeiros clientes pode precisar de rondas de investimento muito maiores para instalar produção, contratar equipas especializadas ou entrar em mercados internacionais.
A própria Comissão Europeia reconhece esta dificuldade.
No relatório da Década Digital de 2026, Portugal surge com progressos no ecossistema de inovação e scale-ups, mas a Comissão recomenda acelerar a capacidade de crescimento das empresas e melhorar o acesso a financiamento.
Ao nível europeu, a resposta também está a mudar de escala.
O EIC criou instrumentos capazes de investir entre 10 e 30 milhões de euros por empresa em tecnologias estratégicas e a União Europeia iniciou este verão o Scaleup Europe Fund, com uma meta inicial de 5 mil milhões de euros.
A preocupação é a mesma: não basta criar tecnologia na Europa se as empresas precisarem de procurar fora da Europa o capital necessário para crescer.
Ciência, indústria e capital têm de se encontrar
É talvez esta a parte mais importante do Tech Foundry.
O programa não promete transformar automaticamente investigação em empresas de sucesso.
O que tenta fazer é aproximar grupos que normalmente trabalham com ritmos, incentivos e linguagens diferentes.
Investigadores precisam de perceber mercado e industrialização.
Investidores precisam de conseguir avaliar tecnologias cujo retorno pode demorar anos.
Empresas industriais precisam de encontrar investigação que resolva problemas concretos.
E universidades e centros de investigação precisam de mecanismos para proteger, licenciar e transferir o conhecimento que produzem.
A Agência Nacional de Inovação está também a desenvolver o projeto INOV+AÇÃO até 2028, precisamente para reforçar a ligação entre o sistema científico e tecnológico e o tecido empresarial, incluindo transferência de conhecimento, propriedade intelectual e empreendedorismo tecnológico.
Quando várias políticas públicas começam a tentar resolver o mesmo problema, isso é por si só um sinal de que a questão deixou de ser periférica.
O verdadeiro teste começa agora
O Tech Foundry termina em dezembro com um Demo Day.
Mas o indicador relevante não será o número de apresentações feitas nesse dia.
Será aquilo que acontecer depois.
Quantas equipas conseguem criar empresas?
Quantas conseguem realizar pilotos industriais?
Quantas encontram clientes?
Quantas levantam capital?
Quantas tecnologias avançam para níveis superiores de maturidade?
E quantas continuam sediadas em Portugal quando chega a fase de crescer?
São estas respostas que permitirão perceber se Portugal está apenas a produzir mais programas para startups ou se está realmente a construir uma cadeia capaz de levar ciência portuguesa do laboratório até à indústria.
- Que equipas integram a primeira edição do Tech Foundry Portugal.
- Que tecnologias avançam para pilotos e validação industrial.
- Quantas equipas constituem empresas durante ou depois do programa.
- Que capital conseguem captar.
- Que projetos chegam efetivamente a clientes e mercado.
- Se os mecanismos nacionais conseguem acompanhar as empresas quando deixam de ser startups e precisam de escalar.
Portugal está a tentar reforçar a passagem da investigação científica para o mercado. O Tech Foundry Portugal — Deep Tech Edition trabalha precisamente com equipas que já têm tecnologias validadas em laboratório ou em ambientes relevantes, mas ainda precisam de transformar essa ciência em produto, empresa e investimento.
O problema não está apenas em produzir investigação. Está no espaço entre a descoberta científica e a criação de uma empresa capaz de industrializar, financiar e vender essa tecnologia. Portugal e a União Europeia estão a criar mais instrumentos para tentar preencher essa lacuna.
