Google e Cathay testam IA para reduzir o impacto climático dos contrails
O sistema prevê zonas onde se podem formar rastos de condensação persistentes e permite aos pilotos avaliar pequenas alterações de altitude para tentar evitá-los.

Uma pequena alteração de altitude pode fazer diferença no impacto climático de um voo.
É essa a hipótese que a Google e a Cathay Pacific estão agora a testar em operações comerciais.
As duas empresas anunciaram um ensaio que utiliza inteligência artificial, previsões meteorológicas e dados de satélite para identificar zonas da atmosfera onde existe maior probabilidade de formação de contrails persistentes — os rastos de condensação que vemos frequentemente atrás dos aviões.
Quando essas condições são detetadas, a informação pode ser integrada no planeamento do voo e usada pelos pilotos para avaliar pequenas alterações de altitude.
O objetivo não é reduzir diretamente as emissões de dióxido de carbono do avião.
É tentar diminuir outro efeito climático da aviação: o aquecimento associado aos contrails persistentes.
Porque é que os rastos dos aviões podem aquecer o planeta?
Os rastos de condensação podem formar-se quando o vapor de água e partículas presentes nos gases de escape dos motores encontram ar muito frio e húmido a grande altitude.
Alguns desaparecem rapidamente.
Outros podem persistir e espalhar-se, formando estruturas semelhantes a nuvens cirrus.
Estas formações interagem com a radiação que entra e sai da atmosfera. Podem refletir parte da energia solar, mas também dificultar a perda de calor da Terra para o espaço.
Dependendo das condições, o efeito líquido dos contrails persistentes pode contribuir para o aquecimento.
É por isso que são estudados como um dos efeitos climáticos não-CO₂ associados à aviação.
Como funciona o sistema
A abordagem desenvolvida pela Google procura identificar antecipadamente regiões da atmosfera favoráveis à formação de contrails.
Para isso combina modelos de inteligência artificial com previsões meteorológicas, dados atmosféricos e observações por satélite.
Essa informação pode depois ser integrada no planeamento operacional.
Se uma aeronave estiver prestes a atravessar uma zona considerada favorável à formação de contrails persistentes, pode ser avaliada uma pequena alteração de altitude.
Mas um avião não pode simplesmente mudar de nível de voo sempre que um algoritmo o sugere.
Tráfego aéreo, segurança, meteorologia, espaço aéreo disponível, consumo de combustível e outras exigências operacionais continuam a condicionar qualquer decisão.
O sistema deve, por isso, ser entendido como apoio à decisão e não como um mecanismo autónomo que controla o avião.
Mais de 80 voos já seguiram rotas alternativas
Segundo a Google, mais de 100 voos foram identificados para os primeiros ensaios e mais de 80 seguiram rotas destinadas a evitar zonas favoráveis à formação de contrails.
A empresa estima que, nesses voos, o impacto de aquecimento associado aos contrails tenha diminuído cerca de 40%.
É um resultado relevante, mas precisa de contexto.
Os 40% são uma estimativa da própria Google sobre uma componente específica do impacto climático: o aquecimento associado aos contrails.
Não significam que os voos tenham reduzido em 40% as emissões de CO₂, o consumo de combustível ou o seu impacto climático total.
E também não devem ser apresentados como resultado do novo ensaio da Cathay Pacific, que servirá precisamente para testar a abordagem em novas condições operacionais.
Porque entra agora a Cathay Pacific
A parceria com a Cathay Pacific leva o sistema para operações comerciais na região Ásia-Pacífico e para voos de muito longa distância.
Isso permite testar uma questão que não se resolve apenas num modelo computacional: até que ponto é possível integrar a prevenção de contrails na operação quotidiana de uma companhia aérea.
Prever uma zona favorável à formação de rastos é uma coisa.
Alterar um voo real enquanto se respeitam regras de tráfego, segurança, combustível e meteorologia é outra.
O ensaio deverá ajudar a perceber se a técnica consegue passar de experiências relativamente limitadas para uma utilização operacional mais ampla.
Evitar contrails não substitui a redução de CO₂
A estratégia não resolve, por si só, o problema climático da aviação.
Os aviões continuam a emitir dióxido de carbono e outros gases, e o setor continua dependente de medidas como maior eficiência, renovação das frotas e combustíveis com menor intensidade carbónica.
A prevenção de contrails atua noutra frente.
Em vez de esperar por uma nova geração de aeronaves, tenta reduzir um impacto que depende das condições atmosféricas e da trajetória seguida durante o voo.
Se os resultados forem confirmados em operações de maior escala, o risco de formação de contrails poderá tornar-se mais uma variável considerada no planeamento de determinadas rotas e altitudes.
