A arte digital não começou com a IA: uma exposição percorre sete décadas de criação com computadores
“Computer Worlds”, do Centre Pompidou e West Bund Museum, reúne em Xangai perto de 180 obras e documentos para contar uma história que começa nos anos 1950.

A discussão atual sobre inteligência artificial e criatividade pode fazer parecer que a relação entre computadores e arte começou com os geradores de imagem, texto ou vídeo dos últimos anos. A história é muito mais longa.
O Centre Pompidou e o West Bund Museum abriram em Xangai Computer Worlds, uma exposição dedicada à história da criação digital desde os anos 1950 até ao presente. O percurso reúne perto de 180 obras e documentos, entre trabalhos digitais e gráficos, instalações, modelos arquitetónicos, objetos de design e arquivos.
O arco começa na emergência da cibernética, passa pela arte computacional, pelas redes e pela simulação, e chega aos desenvolvimentos contemporâneos em torno da inteligência artificial e dos NFTs.

Antes da IA já existia arte computacional
À medida que os computadores deixaram de ser apenas máquinas destinadas a cálculo científico e administrativo, artistas, designers e arquitetos começaram a usá-los como instrumentos de criação.
Alguns trabalharam com algoritmos e sistemas de regras. Outros exploraram desenho produzido por máquinas, processos generativos, simulação, redes ou ambientes interativos. A exposição coloca pioneiros como Vera Molnar, Manfred Mohr e Herbert Franke em diálogo com artistas contemporâneos.
A presença destes trabalhos ajuda a corrigir uma ideia recorrente: a criação computacional não nasceu quando a inteligência artificial generativa se tornou acessível ao grande público. Há várias décadas que artistas experimentam com a possibilidade de partilhar parte do processo criativo com sistemas técnicos.
O computador não foi apenas um novo pincel
A entrada da informática na arte não significou simplesmente substituir uma ferramenta analógica por uma digital. A programação introduziu sistemas capazes de produzir variações. As redes permitiram criar obras distribuídas. A simulação tornou possível construir mundos e comportamentos que não tinham de existir fisicamente.
Cada geração tecnológica trouxe também novas perguntas sobre autoria, controlo, originalidade e participação da máquina no processo criativo.
É por isso que muitas das discussões atuais sobre inteligência artificial têm antecedentes. A escala, os dados de treino e a facilidade de gerar conteúdos com linguagem natural são novos; várias das perguntas sobre sistemas, regras e autoria não são.
Da cibernética aos NFTs e à IA
“Computer Worlds” organiza essa continuidade através de obras das coleções do Centre Pompidou. O percurso começa nos anos 1950 e acompanha mudanças em novos media, design e arquitetura até chegar a temas como inteligência artificial, simulação, redes e formas digitais contemporâneas.
A exposição não apresenta a IA como o início da arte digital, mas como um capítulo recente de uma relação muito mais longa entre criatividade e computação.
Essa perspetiva histórica também muda a forma como olhamos para o presente. Quando uma tecnologia parece romper completamente com o passado, vale a pena perguntar que experiências anteriores já colocaram problemas semelhantes.
Setenta anos ajudam a colocar o presente em perspetiva
Quem é o autor quando uma obra depende de um sistema? Quanto controlo deve ter o artista? O acaso pode fazer parte do processo criativo? E o que acontece quando uma tecnologia torna certas formas de produção acessíveis a muito mais pessoas?
Estas perguntas atravessam várias fases da história da arte computacional. A IA generativa não as elimina. Amplifica-as e acrescenta outras, sobretudo relacionadas com escala, dados, direitos e modelos capazes de produzir conteúdos a partir de grandes coleções de exemplos anteriores.
É por isso que uma exposição sobre sete décadas de criação digital pode ser particularmente útil em 2026. Em vez de perguntar apenas se a IA está a mudar a arte, permite perceber onde essa mudança se encaixa numa história que já atravessa várias gerações tecnológicas.
“Computer Worlds” está patente no Centre Pompidou × West Bund Museum Project, em Xangai, de 24 de setembro de 2026 a 14 de fevereiro de 2027.
