Programadores querem saber quanta energia o software desperdiça — e ainda faltam ferramentas para medir
Um estudo da GitHub e Yale mostra procura por métricas e ferramentas que tornem o desperdício de compute visível durante o desenvolvimento.

Os programadores medem quase tudo. Sabem quanto tempo demora uma função, quanta memória usa um processo e quantos testes falharam numa nova versão. Há, no entanto, uma dimensão que continua muito menos visível: quanta energia o software consome para fazer o mesmo trabalho.
Um estudo da GitHub com o Yale Program on Climate Change Communication, baseado num inquérito a 1.039 utilizadores do GitHub, encontrou uma procura clara por ferramentas que ajudem a identificar desperdício de compute, medir melhorias e incorporar eficiência no desenvolvimento normal de software.
Segundo os resultados divulgados pela GitHub, 80% dos participantes disseram estar muito ou razoavelmente interessados em ferramentas para escrever código mais eficiente em termos energéticos. Cerca de 78% mostraram interesse em boas práticas e 74% em formas de medir o impacto do software ou do processo de desenvolvimento.
O inquérito foi realizado online, em inglês, entre 1.039 utilizadores adultos do GitHub nos Estados Unidos. A amostra foi retirada de utilizadores que tinham aceitado receber comunicações de marketing e não é probabilística; por isso, os resultados descrevem os inquiridos e não devem ser tratados como representativos de todos os programadores ou de todos os utilizadores do GitHub.

Eficiência não é apenas velocidade
É tentador assumir que um programa mais rápido consome necessariamente menos energia. Nem sempre. O consumo depende do hardware, do tipo de carga, do tempo de execução, da utilização de memória, do local onde a computação acontece e até da origem da eletricidade usada nesse momento.
Dois programas podem produzir exatamente o mesmo resultado com custos computacionais muito diferentes. Um pode executar mais instruções, movimentar mais dados entre memória e processador ou desencadear tarefas de infraestrutura que o programador não vê diretamente. Em serviços usados milhões de vezes, pequenas diferenças podem acumular-se.
É por isso que os participantes pedem métricas mais próximas do trabalho diário. Entre as respostas recolhidas aparecem pedidos para estimar o impacto de repositórios, detetar execuções desnecessárias de CI/CD, comparar abordagens e perceber onde a utilização de IA acrescenta compute que talvez não seja necessário.
O que não se mede tende a ficar fora da decisão
O desenvolvimento moderno já tem ferramentas maduras para desempenho, segurança e qualidade. Um programador pode receber um alerta quando uma dependência tem uma vulnerabilidade, quando um teste falha ou quando uma alteração torna uma página mais lenta. A eficiência energética raramente tem o mesmo nível de integração.
Isso cria um problema de incentivo. Mesmo quando uma equipa quer reduzir desperdício, pode não saber onde começar, como quantificar a melhoria ou como justificar o tempo gasto numa otimização que não altera diretamente uma funcionalidade visível para o utilizador.
O estudo não prova que os developers vão mudar o comportamento apenas porque dizem querer melhores ferramentas. É um inquérito sobre interesse e necessidades declaradas, não uma medição de adoção real. Mas ajuda a identificar uma lacuna concreta entre intenção e infraestrutura.
Green software pode começar antes do data center
A discussão sobre energia digital costuma concentrar-se nos grandes centros de dados, nos chips e na capacidade elétrica necessária para IA. Essa camada é importante, mas não é a única. Decisões tomadas no código determinam quantas operações são executadas, com que frequência e com que eficiência.
Reduzir chamadas redundantes, evitar pipelines desnecessários, escolher estruturas de dados adequadas ou limitar trabalho que não acrescenta valor pode diminuir compute sem exigir hardware novo. Em grande escala, software mais eficiente pode reduzir custos operacionais e consumo de recursos ao mesmo tempo.
Há, contudo, um risco de simplificação. Uma métrica única de “carbono do código” pode esconder diferenças entre máquinas, regiões e horários. A própria GitHub sublinha que medições credíveis precisam de contexto e que alegações ambientais devem ser sustentadas por dados.
A próxima ferramenta pode ser uma conta de eletricidade para o código
O passo seguinte é perceber se plataformas de desenvolvimento começam a transformar esta procura em ferramentas concretas. Um indicador integrado no editor ou no pipeline poderia mostrar onde o software desperdiça recursos da mesma forma que hoje mostra regressões de desempenho.
Se isso acontecer, eficiência energética deixa de ser um tema separado de sustentabilidade e passa a ser mais uma dimensão de qualidade de engenharia. A pergunta deixa de ser apenas “funciona?” ou “é rápido?”. Passa também a incluir: quanto trabalho computacional foi necessário para chegar ao mesmo resultado?
