Google começa a vender telepresença 3D em seis países — numa tentativa de reconstruir a presença à distância
Beam usa múltiplas câmaras, IA e um ecrã 3D para criar profundidade e contacto visual sem óculos de realidade virtual.

Depois de duas décadas a melhorar câmaras, microfones e compressão de vídeo, a videoconferência continua a ter um problema difícil de resolver: uma chamada ainda não parece uma conversa cara a cara. O Google está a tentar atacar essa diferença com o Beam, um sistema de telepresença 3D que começa agora a chegar a clientes em seis países.
Segundo a empresa, unidades Beam estão a ser enviadas para organizações nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha e Japão. A expansão é apoiada por 18 parceiros de distribuição e inclui uma parceria com a Industrious para criar uma rede de espaços onde o sistema poderá ser usado sem cada empresa ter de instalar equipamento próprio.
O Beam combina múltiplas câmaras, processamento por IA e um ecrã 3D para criar profundidade e tentar preservar contacto visual. Não exige óculos de realidade virtual. A ideia é que a pessoa do outro lado pareça ocupar volume e espaço, em vez de surgir apenas como uma imagem plana numa janela.

O problema não é apenas qualidade de imagem
Zoom, Teams, Meet e outras plataformas já conseguem transmitir vídeo com boa resolução e baixa latência em muitas situações. Mesmo assim, reuniões remotas continuam a perder parte da linguagem corporal, do contacto ocular e da sensação de presença que existe numa sala partilhada.
Há uma razão geométrica simples: numa chamada normal, a câmara e os olhos da outra pessoa raramente estão alinhados. Quando olhamos para a imagem no ecrã, não estamos a olhar diretamente para a lente. A profundidade também desaparece, tornando gestos e distância mais difíceis de interpretar.
O Beam tenta reconstruir essas pistas em vez de apenas melhorar a definição. É uma mudança importante de objetivo: passar de “ver e ouvir alguém” para simular uma presença física suficientemente convincente para certos tipos de interação.
Da demonstração para a implantação
O projeto nasceu como Starline e passou vários anos em protótipos e testes. A novidade agora é menos tecnológica do que operacional: o Google está a transformar a experiência num produto distribuído internacionalmente, com parceiros capazes de instalar e suportar o sistema.
A parceria com a Industrious é particularmente relevante porque testa um modelo de acesso partilhado. A partir de outubro, algumas localizações nos Estados Unidos deverão permitir reservar sessões com o HP Dimension with Google Beam. Em vez de cada organização comprar uma sala dedicada, poderá usar uma infraestrutura comum quando precisar de uma reunião de maior presença.
Isso pode fazer sentido para entrevistas, reuniões com clientes, gestão de equipas distribuídas ou conversas em que linguagem corporal tem mais peso. Mas o custo, o espaço necessário e a necessidade de ter equipamento compatível dos dois lados continuam a limitar uma adoção comparável à videoconferência convencional.
Os benefícios comportamentais ainda precisam de validação externa
O Google apresenta dados internos e relatos de pilotos que associam Beam a interações mais naturais e maior sensação de ligação. Esses resultados são úteis para perceber a ambição do produto, mas continuam a vir do próprio programa da empresa e de parceiros envolvidos.
Será importante comparar a experiência com videochamadas comuns em estudos independentes: não apenas perguntar se parece “mais real”, mas medir fadiga, qualidade de comunicação, tomada de decisão, colaboração e custo por reunião.
Talvez o futuro do trabalho remoto passe por reconstruir a sala
A evolução da comunicação à distância seguiu durante anos uma lógica de compressão: colocar cada vez mais trabalho num portátil. Beam vai na direção oposta. Aceita uma infraestrutura maior e mais especializada para recuperar sinais humanos que o ecrã plano perdeu.
Isso não significa que vá substituir o Meet ou o Zoom. É mais plausível que se torne uma camada para situações específicas em que presença vale mais do que conveniência. Depois de melhorar a videoconferência durante anos, a indústria pode estar a regressar a uma pergunta antiga: quanto da comunicação depende simplesmente de sentirmos que a outra pessoa está realmente ali?
