ETSI leva a prevenção de deepfakes para dentro do ciclo de vida da IA
A especificação TS 104 275 acrescenta avaliação antes do lançamento, supervisão humana, monitorização e testes com critérios de aprovação.

Uma norma para agir antes de o conteúdo existir
O ETSI publicou em 29 de outubro a especificação técnica TS 104 275, dedicada à redução do risco de sistemas de inteligência artificial generativa produzirem deepfakes nocivos. O documento aplica à IA generativa os requisitos de cibersegurança de base da EN 304 223 e organiza controlos ao longo do ciclo de vida do sistema, desde a avaliação prévia ao lançamento até à investigação de incidentes.
A mudança prática está no objeto da verificação. Em vez de avaliar apenas se uma imagem ou um áudio já criado parece manipulado, a organização deve demonstrar que identificou formas previsíveis de abuso, escolheu salvaguardas e conserva evidência de que esses controlos funcionam.
Que controlos entram no processo
A especificação inclui avaliações de risco antes da disponibilização, processos de revisão e intervenção humana, filtros e avisos adequados ao contexto, rotulagem de conteúdo gerado e monitorização contínua de ameaças. Inclui também cenários de teste e critérios de aprovação ou reprovação.
Essa combinação aproxima a governação da IA de uma disciplina de engenharia: cada risco deve ser ligado a um controlo verificável, a um responsável e a registos que permitam auditoria. A norma também prevê atualização quando surgem novas técnicas de manipulação ou padrões de fraude.
O alcance jurídico é limitado
A TS 104 275 é uma especificação técnica, não uma lei nem uma certificação automática de conformidade com o Regulamento da Inteligência Artificial. O próprio ETSI apresenta-a como apoio aos objetivos europeus, incluindo sistemas que não pertencem à categoria legal de alto risco. A adoção e a forma como será usada em contratos, auditorias ou supervisão dependem das organizações e das autoridades.
Também não garante que um sistema deixe de produzir material abusivo. Filtros podem ser contornados, os modelos mudam e a avaliação depende da qualidade dos testes. O valor do documento está em tornar explícitas obrigações de processo e em permitir verificar se foram cumpridas.
Porque esta abordagem interessa
Os deepfakes são usados em fraude, abuso sexual baseado em imagem e desinformação. A deteção continua necessária, mas atua depois de o material existir e pode chegar tarde. Uma abordagem preventiva distribui responsabilidade por quem desenvolve, integra e opera a tecnologia.
Para empresas que compram ou disponibilizam modelos generativos, a questão passa a ser concreta: que testes foram feitos, que tipos de abuso cobrem, quem pode intervir e que evidência fica disponível quando há um incidente.
O que falta observar
Será decisivo acompanhar a adoção da especificação, a publicação dos métodos de teste e a relação com normas harmonizadas e orientações do Regulamento da IA. A eficácia terá de ser medida em avaliações independentes e em incidentes reais, não apenas na existência de documentação interna.
